Uma vez, Bailei na Curva.

Nasci em 1968, o ano que não terminou. Sou da turma dos canhotos de 68. Vivi minha infância e adolescencia no Rio de Janeiro, no meio do burburinho da ditadura militar.

Soldados perseguindo um manifestante

A ditadura durou de 64, quatro anos antes do meu nascimento, até 85, quando eu tinha  17 anos, e já estava no CEFET-RJ. Portanto, não posso dizer que vivi na carne os anos de chumbo. Mas em um destes regimes, nunca se pode dizer que não foi afetado por ele.

Meu pai, na época, trabalhava em uma Multinacional, e eu morava muito próximo ao prédio da UNE na Praia do Flamengo, 132. Estudava no Colégio Andrews, ao lado de muitas pessoas que hoje estão por aí, nos esportes, na cultura e política do Brasil. Vi quando o governo FIgueiredo tomou e derrubou o prédio da UNE (incrível, não achei nada na Internet sobre o confronto, somente sobre a derrubada do prédio). Aterrador o conforonto, para um moleque de 12 anos, que viveu protegido na família até então.

Muita gente talvez não vislumbre o que é ter vivido isso, ou por ter nascido depois disso, ou por ter morado em locais que não sofriam a ditadura com tanta intensidade ( se é que isso é possível). E é triste que isso não seja devidamente ensinado, pois não podemos esquecer. Fico triste de ver que a maior realização da minha geraçõa foi eleger e depois depor o Collor (tá bom, não foi minha geração, mas não estou tão longe assim). Ninguém quer mais luta armada, mas vaquinhas de presépio que votam no PX ou PY só porque é o PX ou o PY não dá. Nego escolhe candidato por quem mandou, e não por o que ele faz ou vai fazer.

Foco, Marcelo.

Pois a partir de 1985 eu, como bom adolescente bichogrilo me enveredei pelos caminhos da arte, música e teatro. Me juntei a um grupo de teatro, tocando e atuando em algumas peças. Mas isso é uma outra história.

Junto com o grupo vieram novas amizades. Gente diversa, que hoje está espalhada por este Brasil. E a gente consumia cultura. Muita cultura. Nada de frescura.  a gente gostava de sentar em um boteco e conversar sobre música, teatro e dança, depois escolher o que ia ver no cinama ou teatro. Às vezes passávamos a madrugada em claro discutindo uma ou outra peça de teatro. Em uma dessas eu Bailei na Curva.

Ouvi falar de uma peça com 48 personagens, interpretados por oito atores. O cenário era feito somente de cadeiras de boteco, essas de madeira. O teatro era na UFRJ da Praia Vermelha, mas não lembro o nome. Para quem não é do Rio, é um lugar que só se vai voltando. Ali perto tinha um cinema (o finado Cine Veneza) que a gente chamava de “Ruim de Ir”. A peça, de 1983, versava sobre um grupo de crianças que tinha por volta de 5 anos em 64 na ápoca do golpe. Ou seja, gente que hoje tem seus 50 anos, e viveu a ditadura um pouco mais do que eu e minha geração. Uma experiência um pouco mais intensa que a minha em relação a isso. Chamei uma amiga e fomos.

Foram por volta de duas horas de emoção contida. Vimos uma estória parecida com a nossa se desenrolar no palco e saímos do teatro embevecidos. A experiência foi tão forte que minha amiga desatou a chorar. Pausa.

A peça é de um gaúcho, de Porto Alegre, e mostra  aqueles acontecimentos sob o ponto de vista dos gaúchos. Acho que junto com os cariocas, talvez tenham sido os que mais se rebelaram e sentiram esta época.

Existem três pontos de clímax na peça. O primeiro é quando alguns personagens se encontram, já no fim da ditadura, e, comentando sobre seus conhecidos, perguntam sobre um cara chamado Pedro. E vem a resposta: Pedro bailou. Bailou na Curva.

O segundo é o poema final que uma das personagens faz uma poesia para o amigo Pedro:

Meu amigo Pedro era uma pedra na vida deles
Como um pedaço solto de coragem
Nem bem crescido ainda
Saiu, lutou e morreu
Morreu assim como um corpo arrebentado
Esticado, dividido
Morreu como um afogado, agonizando, torturado
Morreu como seu pai, desaparecido
Mas ninguém esperava que ele fosse re-viver
Ninguém esperava que ele fosse mais que aquele monte de carne e osso
Que sobrou depois de dois dias nas salas escuras
Depois de dois dias de choques, água fria, paulada, perguntas
Ninguém esperava que Pedro fosse de pedra
Que pedra pode estar parada, inerte
Mas pode ser pedra no ar, arremesso, tiro, vidro estilhaçado
Que pedra pode ser raiva na multidão
Pode ser fogo, fome, febre
Pedra pode ser mais
Que carne é mais que pedra
E Pedro é mais que carne
Que não adianta represar os rios se não se pode parar a chuva
Ninguém esperava que seus amigos, irmãos, todos
Todos soubessem de tudo
Mas que ninguém podia fazer nada
Que a diferença entre Pedro e nós
É a mesma de um assaltante de bancos e um batedor de carteiras
Mas o tempo é o melhor dos remédios
E o tempo tudo cura
Mesmo as feridas deixadas por Pedro
Menos as que em seu corpo permaneceram
Depois que ele ficou ali num canto da sala, agonizando
Enquanto seus algozes riam e tomavam café
Mas o que eu quero dizer
É que ninguém esperava que eu- justamente eu – filha da mesma noite
Contasse essa história

O terceiro é o fim da peça, em que todos cantam a música que se tornou símbolo de Porto Alegre:

Há muito tempo que ando
Nas ruas de um porto não muito alegre
E que no entanto
Me traz encantos
Um pôr de sol me traduz em versos
De seguir livre
Muitos caminhos
Arando terras
Provando vinhos
De ter idéias de liberdade
De ver amor em todas idades
Nasci chorando
Moinhos de vento
Subir no bonde
Descer correndo
A boa funda de goiabeira
Jogar bolita
Pular fogueira
Sessenta e quatro
Sessenta e seis
Sessenta e oito mau tempo talvez
Anos setenta não deu prá ti
E nos oitenta eu não vou me perder por aí.

Fim da Pausa. Em meus anos fora do Rio, quando tocava com Mauro Marinelli, ouvia sempre essa música e sempre lembrava de minha amiga. Escrevi isso hoje para dizer para minha amiga que nunca me esqueci daquele dia. E que toda aquela emoção só nos traz uma responsabilidade. Não podemos deixar que se perca. Não podemos deixar ser esquecido. Nossos filhos, a minha filha linda, que um dia vai ler isso e entender, bem como a filha de minha amiga, que um dia também terá idade para entender, devem entender que o que aconteceu naquela época não pode se repetir. E cabe a nós preservar estas informações, como coube a nossos pais silenciosamente nos educar para que isso não se perdesse. Aquela caminhada da praia Vermelha até o Leme, silenciosa e triste me ensinou isso. E vou passar isso para a frente, sempre.

Amplexos, para que não se esqueça, para que não se repita.

2 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s