Turin, Primavera de 2014

Ok, o título é Babaca. Mas quando comecei a escrever, logo pensei em Vinícius, “A carta que não foi mandada”: “Paris, Outono de 73”. Desculpaí. Mas de mais a mais, quero escrever sobre o Brasil. Amanhã à noite farão 50 anos do golpe militar que mergulhou o Brasil na mais longa ditadura de sua história. Eu fui criança sob o jugo da ditadura militar, passei por coisas que não entendia, e hoje entendo.

O fato é: como chegamos à ditadura? Porque os militares se rebelaram? Eu estudei história do Brasil durante a ditadura, e nem chamavam 64 de golpe, mas sim de revolução. Logo que acabou, em 85, o governo democrático se instaurou, e trataram de rebatizar como golpe.

No fundo, 64 foi uma solução absurdamente ruim para um problema que nosso país ia enfrentar. Jango era um maluco, teimoso e mal acessorado, vivia sob a influencia de um cunhado mais maluco ainda (nem vou falar o nome, se não as viúvas me matam). O fato é que o Brasil não aguentaria muito mais do governo do Jango. A guinada para a esquerda foi mais brusca que a do vôo da Malasian Airlines (too soon?). Nossa sociedade não estava preparada para isso. Naquela época, a crença de que comunistas comiam crianças era forte. Falar em apropriações de terra sem reembolso aos donos, reformas bancárias, administrativas, universitárias e eleitorais, como Jango fez no discurso de 13 de Março, era colocar álcool na fogueira. Aliás, o que faz um presidente da República em um comício fora de época eleitoral?

Então, falemos às claras. Jango não ia nos salvar. Ele estava nos empurrando para o buraco. E dentro do buraco estava uma merda mais fedorenta que a que JK e Jânio tinham feito antes. Aliás, acho que a nossa constituição deveria proibir a eleição de presidentes com o nome iniciado em “J”.

Aí nosso povo, se revoltou. A classe média não queria isso. Precisava sair dessa merda. E fizeram a tal da “Marcha da Familia com Deus pela Liberdade”, apavorados com a idéia de virarmos um país comunista. Antes de continuar, um parênteses. A tal “Marcha da Familia com Deus pela Liberdade” não foi NUNCA uma defesa da ditadura militar. Eles queriam somente se proteger do comunismo.

Aí eu digo: todo mundo errado nessa merda. Jango e alguns malucos querendo implantar a Nueva Cuba no Brasil. A classe média defendendo seu própio cu. Façamos uma equação, com duas entradas, só para simplificar (na verdade são muitoas mais). Uma é merda, a outra é merda, qual a saída?
Bom, se for uma lógica booleana AND, teremos, merda AND merda == MERDA, ou seja, os militares, que já estavam ouriçados para tomar o poder desde Getúlio, falaram, “Ninguém vai subir nessa porra!” vamos tomar o poder somente um pouquinho, depois, vocês elegem um presidente decente e a gente cai fora.

(tempo para rirmos um pouco, nervosamente…….pronto)

Nosso grande amigo Castelo Branco até pensava nisso, mas foi delicadamente dissuadido da idéia, e morreu misteriosamente em um acidente em que um avião militar colidiu no ar com o avião onde ele estava (só estou contando a história).

No fim, veio AI-1, AI2, AI-3, AI4, e comemorando meu nascimento, AI-5. O Brasil virou uma ditadura das piores. Nem vou falar do Medici. Pessoas morreram, muitas. Muitos inocentes, muitos foram torturados. Difícil falar sobre isso sem se emocionar. Tenho amigos que perderam parentes nessa luta.

Chegou Geisel e começou uma “abertura”, que continuou com Figueiredo. Mas ainda tentaram foder com tudo reverter a situação. Riocentro, 1981. Quem? Até hoje não se sabe.

Estou em Turin e li muito nos últimos dias sobre o Golpe de 64. Hoje passei um dia passeando em Turin com uma ótima amiga (italiana) e conversei muito sobre a segunda guerra, sobre fascismo, sobre a criação da Itália unificada e pensei muito em como isso é um paralelo com nosso país. Precisamos aprender, como nação, a olhar menos para nosso umbigo, e mais para todos que são afetados pela nossa existência. A Itália não é o melhor exemplo de país super organizado, mas ainda assim, eles tem centenas de anos a nossa frente, mostrando que toda vez que um povo se une e tenta realmente ser um país, tudo melhora. O Brasil hoje não é um país, somos um monte de gente aplicando a lei de Gerson (não me excluo disso).

A Itália era um monte de principados até há 150 anos atrás. Agora é um nação em que todos se orgulham de serem italianos. Na época da unificação, bandeiras italianas parecem em todas as janelas. Quando vemos bandeiras brasileiras em nossas janelas (esqueça a copa)? O 7 de Setembro já foi arruinado pela ditadura, temos que arrumar outra data. A eleição de 89 (primeira após a ditadura)? Sei lá. Qualquer data. Mas precisamos ter orgulho de viver aqui e de nossa história.

Enfim. Divago. Porém, a mensagem é: morremos um pouco há 50 anos por conta de nosso egoísmo endêmico. E morreremos mais um pouco de novo se não tomarmos cuidado. Estamos indo para o buraco de novo. E nosso egoísmo só aumenta.

Amplexos preocupados.

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