Chadwick Boseman foi muito mais que uma cor

Sábado passado (29/08) acordamos com a notícia que ele tinha morrido. Sim, o Pantera Negra não está mais entre nós. Obviamente a internet se coalhou de homenagens, textões, emojis chorando e afins (e eu não tenho FB, então nem vi como foi por lá). Na TV, todos os noticiários falando do único super-herói negro (sic!) e de como ele representava os negros, etc. Na segunda, os comentaristas (que por anos criticavam a infestação dos filmes de super-heróis no cinema) louvavam a representatividade que o filme do Pantera Negra trouxe. A Globo exibe o filme com anúncios anteriores com toques dramáticos.

Pois bem. Só digo uma coisa: Ele era muito mais que uma cor.

Chadwick Boseman há alguns anos em 2016 na San Diego Comic Con.
Foto: Gage Skidmore

Segunda-Feira eu li em algum lugar o seguinte:

Quando eu era criança, ensinar sobre não ser racista era dizer que não importa a cor da pele, todos são importantes.

Pois é. Hoje em dia vivemos em um mundo em que uma mulher negra foi agredida verbalmente na Internet porque não “era negra o suficiente” para um papel que ia desempenhar em um filme (ok, depois desistiram do filme pois a homenageada…bem, estou divagando).

Também vivemos em um mundo onde nada existe se não for esfregado na cara dos outros. Fez uma doação: posta no Instagram se não não vale nada. Ganhou um prêmio, posta no Twitter, pois se ninguém souber, é como se não tivesse acontecido.

Perdemos nossa capacidade de esperar as pessoas descobrirem o bem que fazemos (ou fizemos) e nos felicitar. Vivemos na cultura de likes, como se likes alimentassem ou gerassem juros positivos no banco.

Pois bem. No meio desse mundo em que tudo é esfregado em nossa cara, como se não fosse possível descobrir sozinho as coisas boas (e ruins), Chadwick fez cinco (CINCO!!!!) filmes enquanto se tratava de um câncer de estágio III.

Eu não tenho nem nunca tive ninguém próximo com câncer. Não tenho como mensurar o quão difícil é atuar bem enquanto se faz quimioterapia, radioterapia, e se enche de remédios tentando se manter em pé. Mas, objetivamente: o estágio do cancer é obtido através de um método conhecido como TNM, que significa Tumor (tamanho e localização), Node (Número de Linfonodos afetados) e Metástase (Espalhamento do cancer para outras áreas do corpo). Estágio III significa que o cancer já atingiu muitos linfonodos, mas ainda não tem metástase. Segundo alguns artigos, o cancer de Chadwick já tinha evoluído para estágio IV em 2020.

Não estou aqui para discorrer sobre cancer (até porque engenheiro falando de medicina tem tudo para dar errado), mas sim para mostrar que o Chedwick era muito mais que uma cor. Que puta ator. Se você assiste Pantera Negra (ou o Capitão América: Guerra Civil) e depois ouve ele falando fora do personagem, entende o quanto de trabalho que existiu ali. Ele fez o James Brown em Get on Up!!!! James Brown!!!!!! O quão foda um cara tem de ser para interpretar o James Brown?

Enfim, uma carreira curta, mas intensa. Muitas frases excelentes. É claro que ele falou sobre racismo, sobre ser negro. Não estou aqui tentando tirar um elemento racial da história dele, isso é impossível. Pantera Negra, por mais problemas que eu veja no filme (nem me deixa começar, que já mando logo que colocaram um cara branco para salvar a porra toda) foi um filme em que os negro se viram. Coisa que pra mim, ou qualquer outra pessoa branca não parece fazer muito sentido. Mas eu tenho plena percepção que só conseguiria ter essa sensação se for privado de ser representado por grandee parte de minha vida.

Mas se simplesmente colocamos ele como “o protagonista do primeiro filme de herói só com negros ” com ouvi por aí, estamos diminuindo ele e muito. Ele foi muito mais que isso. As crianças podem e devem lembrar dele como um herói negro, mas também por isso:

“Whatever you choose for a career path, remember the struggles along the way are only meant to shape you for your purpose. As you commence to your paths, press on with pride and press on with purpose.”

Chadwick Boseman em um discurso na Universidade Howard.

Para os não versado em inglês: “O que quer que você escolha como carreira, lembre-se que as dificuldades no meio do caminho só existem para moldar você para seu propósito. Enquanto começa seu caminho, vá com orgulho e propósito.”

Então, para finalizar. Fique feliz que Chadwick ajudou a fazer de Pantera Negra um filme representativo, mas nunca, nunca o reduza a uma cor. Somos todos humanos. Alguns mais foda que os outros, como o Chadwick.

Fantastic Four, Vol. 1, No. 52, Julho de 1966.
Imagem: Center for the Humanities Collection, WU Special Collection

Hoje não tem amplexos, só um “Wakanda Forever!”

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