Porque a Tomada de três pinos do Brasil é uma excelente idéia

E não, ela não é uma jabuticaba.

Milhares e milhares de memes e reclamações sobre o nosso padrão de tomada aparecem na Internet de tempos em tempos. Desde a piada “Só a tomada de três pinos já justificava o impeachment”, se referindo ao fato que em 2011, quando a Dilma era presidente, o padrão se tornou obrigatório e todos os fabricantes ficaram proibidos de vender outros tipos de tomadas e plugues. Supreendentemente, Dilma não teve culpa disso, e mesmo se tivesse, seria uma das poucas coisas a se aplaudir do governo dela.

Até o Lula entrou na história

Ocorre que, falando de datas simplesmente, o projeto da norma NBR 14136 (que estabelece o padrão brasileiro de tomadas e plugues) foi publicada originalmente em Julho de 1998, tendo começado a ser preparada no final da década de 1980. Até então, nosso país não tinha um padrão, vendiam-se plugues e tomadas ao gosto do fabricante, a maior parte baseada (ou compatível) com as usadas nos EUA e na Europa. Aterramento? O que é isso? Amperagem? Nem me passa pela cabeça! Crianças enfiando os dedos na tomada era uma coisa normal, tomar chique na tomada era uma coisa normal. Muitos acidentes evitáveis ocorriam.

Parece bem seguro.

O padrão adotado por nós é totalmente baseado em uma norma internacional (IEC 60906-1), porém com um catch: A norma internacional foi publicada em 1986 e, portanto, já estava meio atrasada. Por exemplo, a IEC prevê um máximo de 16A de corrente, mas uma Air Fryer, por exemplo, para manter as margens de segurança, precisa de instalação que suporte até 20A. Então, para acomodar estas atualizações, a ABNT se baseou na IEC, porém a ampliou, criando as tomadas de 20A, onde podem ser colocados plugues de 10A. Mas o inverso não é verdadeiro, promovendo maior segurança.

Aliás, segurança é o forte do padrão. O rebaixo, tão odiado por todos, evita que você encoste os dedos nos pólos dos plugues e, mesmo que consiga encostar, o contato com a energia só acontece no fim do furo para o plugue, quando o corpo do plugue já está dentro do rebaixo.Isso evita muitos acidentes.

Nem tudo são flores, no entanto. Aqui é Brasil e nós temos a capacidade de foder estragar tudo. E como nós caprichamos. Existem adaptadores de 20A para 10A (como se fosse eletricamente possível). A maior parte das tomadas de 20A que já vi são idênticas eletricamente às de 10A, exceto pelo furo mais largo. Existem plugues encapados (maior proteção) e outros não encapados. Isso do lado dos fabricantes. Os usuários também tem sua culpa. Usam adaptadores que não deveriam nem existir, cortam o pino terra, trocam o plugue da Air Fryer (isso é só um exemplo) por um de 10A e outras bizarrices. Isso é puro suco de Brasil.

Bizarrices à parte, em 2002 foi feita a última atualização da norma e ficou decretado que em 2010 a fabricação e venda de plugues antigos seria proibida, o que somente veio a ocorrer em 2011. Em 2006 ficou decretado que todas as edificações novas deveriam ter aterramento.

Agora, me digam, para que as reclamações? É mais que óbvio que, para adotarmos um padrão (nunca diga “novo” padrão, pois não tínhamos nada antes), ovos teriam de ser quebrados. As tomadas de parede deveriam ser substituídas à medida em que novos eletrodomésticos vão sendo comprados. Ninguém precisa achar que é obrigado a trocar tudo de uma vez. Comprou uma TV nova, compre também uma tomada de parede nova, inclua isso no orçamento. Vai pagar R$1000,00 em uma TV e não pode incluir R$20,00 para trocar a tomada? Óbvio que vai alguém pensar que R$20,00 pode não ser pouco para as camadas mais pobres e blá blá blá. Não estou aqui para resolver os problemas sociais e econômicos do país. Meu ponto é: precisávamos de um padrão e agora temos um padrão bom, moderno e seguro.

Do outro lado da moeda, com os famosos problemas de primeiro mundo, eu ouço reclamações de que agora precisam de adaptadores para viajar. O que de cara me faz pensar: como assim cara pálida? Vai pra Londres sem um adaptador e tenta enfiar um plugue europeu na parede. O fato é que o mundo todo tem padrões diferentes, nunca houve um padrão universal. A norma IEC foi uma tentativa disso, mas os ingleses, por exemplo, preferem continuar com o padrão deles, de 1947 (o padrão inglês até que é bom, tem proteção interna de 13A, só precisa ser atualizado). Austrália? usa um de 1930. Ou seja, o mundo todo precisa de adaptadores para viajar, o que fez do meme abaixo uma simples tolice:

Não só é uma tolice, como mentiroso. Os números não batem, e o “padrão universal” não é padrão nenhum.
41 + 39 + 104 + 46 + 15 = 245. Países no mundo: 193

Enfim, concluindo. Precisávamos sair do samba do afro-descendente com transtornos mentais que eram nossas tomadas e plugues. Foi feito um padrão, que não é perfeito, mas é bom e seguro. A obrigatoriedade de se usar o padrão é necessária, pois do contrário não sairíamos do circulo vicioso. O resto é briga política e mimimi de quem não quer sair da zona de conforto.

Amplexos.

PS: Esqueci da cereja do bolo. Corre por aí que isso foi feito para dar dinheiro às fabricantes de tomadas, e, mais ainda, a uma única delas tinha “as máquinas para fabricar”. Já vi muito falatório e textos na imprensa, mas uma prova mesmo, não vi. Conhecendo nosso país, não duvido, e isso não prejudica em nada a qualidade do padrão.

PS2: Também rola que parte da ABNT queria adotar o padrão alemão, que seria o “mais seguro do mundo”. Veja, para ser seguro, o padrão deveria ser seguido à risca. e o padrão alemão é bem complexo, não me parece mais seguro que o nosso (está no mesmo patamar). Mais seguro seria o britânico, que tem um fusível interno.

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